29 janeiro, 2026

ASSIM TAGARELOU ZARATUSTRA

Regressei hoje à universidade. Vagueando pela cidade universitária de uma cidade europeia deu-me vontade de fazer chichi, resolvendo então entrar na faculdade mais à mão para resolver o problema. Como a faculdade onde entrei pela primeira vez há mais de 40 anos, também esta tinha um grande hall à entrada com imensos estudantes por ali a passar ou a conversar, o que fez com que logo reavivasse o que exactamente senti nesse longínquo primeiro dia. Depois, ao sair já aliviado, deu-me para a melancolia, pensando então no que teria feito de diferente ao longo da vida, sabendo o que sei hoje. Ora, a pessoa que sou, que conheço e que identifico como sendo eu, coincide com a pessoa que sabe o que sabe porque foi o que foi. Tivesse feito as coisas de maneira diferente, essa pessoa iria saber coisas diferentes das que sei e, assim sendo, já não seria o que agora sou. Na série Missão Impossível, um dos agentes conseguia substituir o seu rosto por outro. Tal como não aceitaria trocar o meu rosto por outro, por  fazer com que não me reconhecesse, também não teria querido outra vida que não reconheço como sendo a minha e com o que sou. Porque diante do que sou, para o bem e para o mal, não sei responder outra coisa a não ser que sim.

25 janeiro, 2026

OS CINCO NO RESTAURANTE

Almoçar sozinho no restaurante leva, mesmo sem querer, a estar mais atento aos outros. Havia pelo menos dois casais que não disseram uma palavra todo o tempo que lá estiveram. Bem vistas as coisas, não era afinal de contas o único a estar sozinho naquele restaurante. Éramos cinco.

23 janeiro, 2026

O MAL DA BANALIDADE



Fica difícil olhar para a fotografia de cima, sem pensar na Execução de Saigão, a célebre fotografia em que um polícia sul-vietnamita executa a sangue-frio um militar vietcong. No campeonato da brutalidade a de cima consegue vencer. Não se trata da execução de um inimigo durante uma guerra, com os ódios e ressentimentos que esta exacerba, mas de alguém que apenas nasceu judeu, sendo apenas mais um lançado para a multidão na vala comum. Olhamos para a fotografia de cima e percebemos o seu valor documental. Uma representação mas também a confirmação de um facto histórico entre tantos outros milhares de documentos. Daí a enorme relevância do zoom da fotografia de baixo, através do qual nos alheamos do documento para nos concentrarmos num homem. E há um homem por detrás do militar, cuja identidade foi recentemente descoberta. Eis Jakobus Onnen, professor de Inglês e Francês, nascido numa família de classe média, perto da fronteira com a Holanda. No dia da fotografia tinha 34 anos, sendo nazi desde a primeira hora. Morreu em combate na Ucrânia, em 1943. Dizia Kierkegaard que a multidão não tem mãos, não tem rosto, que uma multidão não tem vergonha nem culpa porque não existe ninguém na multidão, apenas uma massa amorfa. Jakobus, o professor Jakobus, o ainda jovem Jakobus, como todos os outros milhares que o acompanham na chacina, é um indivíduo com mãos e rosto, e se não sente vergonha ou culpa é devido ao mal da banalidade que o levou a banalizar o mal. O ser humano passa muito facilmente da normalidade à aberração, basta criar as condições para tornar a aberração normal. Não é apenas a mentira que repetida várias vezes se torna verdade. Também o cheiro fétido de uma ideia, crença ou comportamento, deixa de se sentir quando nos habituamos a ele. O cheiro de uma cidade no século XIX seria insuportável para os nossos sensíveis narizes. Mas ninguém dava por ele, como Jakobus não dava pelo cheiro fétido das suas crenças e acções. Parece-me conveniente pensar que uma cidade do século XXI não está livre dos maus cheiros, basta uma apocalíptica avaria do saneamento básico. Como é hábito e normal, os mais sensíveis não serão capazes, mas muitos outros habituar-se-ão ao cheiro.

22 janeiro, 2026

TALKING HEADS

Viver numa terra pequena leva-me a passar frequentemente pelas mesmas pessoas na rua, muitas que só conheço de vista. Há quatro destas (três mulheres e um homem) pelas quais nunca passei sem que fossem a falar ao telemóvel. Serão dezenas de vezes. Estas pessoas têm um rosto que facilmente reconheço. Porém, uma livre distorção do meu cérebro faz com que, se fechar os olhos para imaginar esses rostos, a única coisa que me vem à cabeça é a frenética boca do "Not I", de Beckett. Já tive a oportunidade de ver a peça num museu e, passados uns minutos, a vontade que dá é dizer "Knot you": coser aquela boca e rematar com um nó bem apertado. Que bom passar pelas pessoas na rua sem poderem ler os nossos pensamentos.

20 janeiro, 2026

A MÁQUINA INDISCRETA


Não é um moribundo qualquer, mas um dos mais míticos e poderosos políticos do século XIX. Eis Otto von Bismarck no seu leito de morte, secretamente fotografado por Max Priester e Willy Wilcke. Veja-se o poder de uma máquina que, ao invés das exaltantes pinturas de heróis e figuras de relevo, consegue destruir uma personagem, roubando-nos o mito Bismarck para nos dar em troca o homem Bismarck no apogeu da sua decadência. Hoje, os políticos gostam de se fazer passar por pessoas vulgares que apreciam coisas vulgares, fazem coisas vulgares e dizem coisas vulgares. Mas Bismarck não é desse tempo, antes querendo ficar eternamente Otto von Bismarck, um dos "grandes da história" acima do comum dos mortais. Viveu e morreu no século XIX mas, com esta fotografia, azar dele, ao contrário de um D. João II, Carlos V, Isabel I, Frederico II, Catarina ou Napoleão, temporalmente protegidos da intrusão de uma máquina fotográfica, fica para a eternidade morrendo vulgarmente como um homem do século XX. Foi por um triz. Umas décadas antes e não teria ficado cativo dos olhares dos séculos seguintes, mas conservado em pinturas, qual borboleta preservada numa moldura para eterna apreciação das suas asas. 

19 janeiro, 2026

ORWELL REVISITADO

Soube que uma amiga de uma amiga espanhola do meu filho morreu no trágico acidente ferroviário de ontem, em Espanha. Tinha 27 anos, a idade do meu filho. Sabia que morreram 40 pessoas até ao momento, as pessoas do costume, simplesmente pessoas. É muito estranho. Eu sou apenas a pessoa que tem um filho que tem uma amiga que tem uma amiga que morreu no acidente. Uma mera abstracção sem rosto, sem nome, sem biografia. Não conheço, portanto, a rapariga que morreu, mas chocou-me mais a sua morte do que as outras 39. A aritmética pode ser exacta, mas apenas no mundo ideal dos números. Todos os mortos em acidentes são iguais abstracções, mas umas são mais iguais do que outras.

18 janeiro, 2026

VAYA CON DIOS

 

O apertado grafismo do título levou-me a uma leitura precipitada. Nada de anormal, pois uma das leis da percepção é a da aproximação, fazendo com que o cérebro, que gosta de ordem, junte elementos objectivamente separados mas que graças a essa junção ganham um sentido que deixa o nosso cérebro, digamos assim, confortado. Não se trata sequer de uma ilusão de óptica, de um engano ingénuo, uma ratoeira perceptiva. Não, é mesmo de liberdade, da liberdade de poder ver o que não está lá, mas que, não sendo verdadeiro, está muito bem apanhado, como diria um italiano. Assim como quando olhamos para as nuvens e reconhecemos figuras que nos são familiares. Sim, os portugueses estão a ir a votos, mas nunca tanto como hoje os seus votos foram tão vaiados. Que Deus ajude o vencedor e, sobretudo, quem nele votar.

16 janeiro, 2026

DIREITA, ESQUERDA, VOLVER

Jean Eustache, La Maman et la Putain [fotograma]
 

O rapaz bate à porta da vizinha para lhe pedir o carro emprestado. Ela dá-lhe a chave, avisando que o pisca da esquerda não funciona. Ele pergunta como é que ela faz quando vida à esquerda, sendo a resposta a que se pode aqui ler. Indo para o campo das ideologias acontece algo semelhante. Para muitos não funciona o pisca da esquerda, sendo assim obrigados a dirigirem-se para a direita. Para muitos outros é o contrário, sempre impelidos a virarem à esquerda. Os seus destinos são por isso opostos, nunca chegando a encontrar-se nos mesmos locais. A vantagem de ter os dois piscas é a liberdade de ir para aonde se quer, virando tanto à direita como à esquerda, sabendo, porém, que há sentidos proibidos por onde não se pode passar.  Ou que, pelos sítios que frequenta, pode pender para virar mais à direita ou à esquerda. Uma cidade é feita de zonas, mas pode-se durante a vida inteira morar, trabalhar, passear, divertir-se, fazer compras, sem sair da sua. Em casos extremos há mesmo quem possa nem sair do seu condomínio fechado, onde há de tudo para se satisfazer. Uma tristeza.

15 janeiro, 2026

DUTY FREE

Aeroporto Adolfo Suarez, 2025

Quando chegou a altura de ir para a universidade ainda ponderei inscrever-me em Direito. Não me inscrevi, e uma das razões foi não me ver a atafulhar a cabeça com leis e códigos. Já me bastaria o da estrada. Mas os cinco anos lá se passariam. Pior é transformar a própria vida também num curso de leis e de códigos, ao longo do qual apenas alguns passam com distinção devido aos seus elevados méritos. Obrigadinho pela parte que me cabe, mas passo.

14 janeiro, 2026

COM A VERDADE ME ENGANAS

Há dois tipos de portugueses: os que dizem chapéu-de-chuva e os que dizem guarda-chuva. Os que dizem chapéu-de-chuva sabem o que é um guarda-chuva. Mas imaginemos que não. Se perguntássemos a uma pessoa com chapéu-de-chuva se tem um guarda-chuva, iria responder que não, levando quem pergunta a acreditar numa coisa falsa sem que a outra esteja a mentir. Algo do género pode acontecer quando se pergunta coisas como: "És racista?", "Acreditas em Deus?", "És patriota?".  Sem estar a mentir, pode-se responder que não quando deveria ser sim, ou sim quando deveria ser não. Ou dar mesmo a resposta correcta, mas  não coincidir com a que seria correcta para o outro. Daí duas pessoas poderem acreditar que pensam da mesma maneira quando, afinal, pensam de maneira diferente, ou acreditarem que pensam de maneira diferente embora pensem da mesma maneira. Daí a pergunta nunca dever ser: "És racista?", "Acreditas em Deus?", "És patriota?", mas antes "Sendo racismo X, sentes-te identificado com X?". Primeiro definir, delimitar o conceito e só depois perguntar. Se uma pessoa com guarda-chuva perguntar a uma outra com chapéu-de-chuva que responderia que não se lhe perguntasse se tem um guarda-chuva: "Tens um objecto constituído por um cabo e que através de varetas permite abrir um tecido impermeável para te protegeres da chuva?", irá, sem equívocos, responder que sim. Só que isso dá muito trabalho, e o que se quer são respostas rápidas, mesmo que leve as pessoas a enganarem-se umas às outras. Mas também é verdade que andar ou não enganado tem cada vez menos importância.

13 janeiro, 2026

ORGULHO E DESPRECONCEITO

Nasci num mundo que louvava a ideia de superação da idiotia, da ignorância, da boçalidade. Não fossem os avós, poderiam ser os pais, não fossem estes, talvez os filhos que, entretanto, aumentaram o nível de escolaridade, chegando mesmo à universidade. Irei morrer num mundo no qual aumenta a idiotia, ignorância e boçalidade mas também, e ainda bem pior do que isso, o orgulho nelas.

12 janeiro, 2026

O ELEITOR IMPERTINENTE

Imagine-se alguém que se recusa a ouvir música porque embora reconheça a qualidade de compositores como Bach ou Schubert, crê que poderia ter havido ainda melhores. Que não está para ver futebol porque mesmo podendo ver vídeos do Brasil de Pelé ou da Holanda de Cruijff, não existe o jogador perfeito ou a equipa perfeita. Não existem pessoas assim face à música ou ao futebol mas, se existissem, não viria mal ao mundo, apenas elas ficariam a perder. Já na política não é assim. O que dizer de quem não vai às urnas por falta de um político suficientemente capaz de merecer o seu voto? Neste caso, podem vir males ao mundo. É que se não há políticos perfeitos, há os que são muito mais imperfeitos do que os outros. E que por vezes ganham, ficando o mundo a perder.

11 janeiro, 2026

A CUSTÓDIA DE BELÉM

 «Já não era a Custódia: era a massa de uma baronesa a levedar» Camilo Castelo Branco, Eusébio Macário

Cumpri hoje de manhã o meu dever cívico, conseguindo não votar branco ou nulo. Quer isto dizer que, por muito estranho que soe nas circunvoluções cerebrais de quem segue a campanha, logrei mesmo, sem me rir, votar num dos candidatos, para quem, no entanto, continuo a olhar sem poder vislumbrar a massa de um presidente a levedar. O mesmo, de resto, acontece com todos os outros, só que ainda mais desfermentados e desenfarinhados do que o meu desejado, embora pouco desejável, eleito. Enfim, votei como quem boceja, só que em vez de usar a mão para tapar a boca, peguei numa esferográfica com os olhos bem abertos para não falhar o alvo. Temos um primeiro-ministro que sonha com uma pátria de Cristianos Ronaldos embalada pelas canções de Tony Carreira. Agora, ganhe quem ganhar, iremos ter uma Custódia na presidência, mas que sem conseguir defecar-se das anteriores particularidades, muito provavelmente Custódia, elle même, continuará a ser.

10 janeiro, 2026

O HOMEM NÃO REVOLTADO

Na secção de padaria do supermercado, encontro uma senhora, já bastante septuagenária, PSD ferrenha, que conheço vagamente, mas o suficiente para dois dedos de conversa. Após os habituais comentários sobre assuntos pessoais, deu-lhe, literalmente suspirando, para abordar o estado do mundo, acabando na sequência disso por desabafar: "Sou católica, acredito em Deus, e que este me perdoe, mas revolta-me a ideia de haver gente boa a morrer tão nova e o malvado do Trump continuar por aí". Pois, eu não sou católico nem Deus faz parte dos meus quadros mentais, daí nem se colocar a questão do seu perdão, mas penso exactamente como a senhora. O que nos separa é apenas a revolta. Ela revolta-se porque acredita em Deus, crença que pressupõe uma ordem e justiça no mundo. Daí ser incompreensível e injusto o balanço entre os que morrem e os que continuam vivos. É como no futebol considerar injusto o resultado quando perde a equipa que jogou melhor. Acontece que, não havendo Deus, o mundo fica entregue a si próprio, a um eterno jogo entre diversos poderes, resultando as vitórias e derrotas de vicissitudes várias que ninguém consegue prever. No futebol, o árbitro, apesar de não marcar nem defender golos, tem por missão imprimir uma certa ordem ao jogo. Pode não ganhar o melhor, mas ganha o que conseguiu fazer com que tal acontecesse, mesmo que nada tenha feito, como acontece ganhar com um auto-golo do adversário. No mundo, embora acreditemos que os há, até porque se apresentam politicamente como tal, nem sequer árbitros existem. Daí não haver razões para revoltas. É apenas esperar que passe e que melhores dias venham e que, antes disso, nunca a chegue a piorar para lá dos limites do razoável.   

09 janeiro, 2026

ESTRELA MICHELANGELI

Há quem nomeie o chef Avillez fazendo acreditar que está a falar de comida quando, na verdade a comida não é o mais importante. O mesmo se passa quando se fala mais de Sokolov ou Michelangeli do que de Schubert ou Beethoven: não é bem, bem, bem de música que se fala. A pintura ou a literatura não têm este potencial, um quadro é apenas um quadro, sem versões ou interpretações, um romance apenas um romance, embora neste caso um tradutor possa respeitar ou desvirtuar a receita original. Já na música não faltam restaurantes cujo alimento faz melhor proveito falado do que comido. Como nos vinhos, aposto que numa prova cega muitos idólatras de Michelangeli não soubessem distinguir uma receita sua da receita de um pianista desconhecido que jamais iriam registar na sua agenda semanal ou nomear durante um jantar.

08 janeiro, 2026

PSYCHO KILLER

Eu gosto de viver, daí aborrecer-me a ideia de vir uma dia a morrer. Mas se pensar na minha morte numa perspectiva teórica e neutra, devo admitir que perdi hoje a oportunidade de ficar registada nos anais das melhores performances mortais. Já perto do final de uma aula, resolvi passar a cena do chuveiro, do Psycho, parando o filme no momento em que actriz vai desfalecendo encostada à parede. Como estávamos mesmo no final da aula, dirijo-me para o quadro para levantar a tela quando, ao fazer o movimento para a baixar para depois, como uma mola, ficar enrolada na parte superior, uma das extremidades da parte metálica e pesada fica presa enquanto o resto, como um pêndulo, vem em furiosa velocidade na direcção do meu ombro, deixando-o bastante dorido. Estivesse um pouco mais ao lado e, em vez do ombro, poderia ser a cabeça. Imaginemos que tinha morrido, o que bem poderia acontecer. Eu iria cair no preciso preciso momento em que a actriz estava também a cair, coincidindo assim a minha morte com a sua. Agora, por que razão resolvi passar aquela cena no final da aula? Porque, no início, ao baixar a tela, disse que o irritante ruído que a tela faz ao descer lembra-me sempre a cena do chuveiro do Psycho. E como ninguém conhecia, resolvi então, só por graça, passá-la. Eu iria morrer devido ao ruído da tela lembrar o ruído que acompanha a morte da actriz, ficando assim as nossas mortes ligadas para sempre num sublime momento de íntima ligação entre a ficção e a realidade. Insisto, seria uma enorme chatice ter hoje morrido, mas uma coisa é certa: uma bela, teatral e barroca morte já ninguém me iria tirar.

07 janeiro, 2026

DURA LEX

 

Lisboa, 2025

Por que há países mais desenvolvidos e outros menos? Sim, os recursos naturais contam, e muito. Mas há países ricos sem grandes recursos e outros, que os têm, são pobres. Talvez a diferença possa também passar por diferentes recursos mentais, que podem ser mais naturalistas (lado esquerdo), ou rococós (lado direito). Uma simples frase, mas que pode ajudar a perceber por que há povos que produzem, enquanto outros investem os seus recursos mentais em actividades cujo benefício é nulo. Eu, sendo professor, que o diga. Neste caso, ao contrário do distópico 1984, em vez de eliminar palavras, acrescentam-se palavras, procurando uma complexidade cujo único benefício é fazer as coisas parecerem mais técnicas e profundas. Um simples exemplo de uma moda recente inoculada na mente docente: em vez de se dizer "na sala de aula", dizer "em contexto de sala de aula". Não é difícil imaginar uma reunião de professores durar mais duas horas do que seria preciso, apenas pelo belo e elegante desafio de, após grande esforço reflexivo, conseguir produzir a expressão «sujeito a sanções legais», tempo mais do que suficiente para castigar pelo menos meia dúzia de ingleses.

06 janeiro, 2026

ACTIVIDADE PISCATÓRIA

Pieter Brugel, O Velho, Peixes Grandes Comem Os Peixes Pequenos [1556]

Há dois tipos de seres humanos: os que fazem pisca ao entrarem numa rotunda e os que não fazem pisca ao entrarem numa rotunda. Politicamente, os primeiros tendem a ser mais liberais, os segundos mais socialistas ou sociais-democratas. Como na gravura de Bruegel, uns acreditam que o mundo é um mar onde há peixes grandes e peixes pequenos, tendo os desejos e interesses dos primeiros total prioridade sobre os desejos e interesses dos segundos. Já outros acreditam que o mundo é mais um aquário onde peixes maiores e mais pequenos coexistem sem sobressaltos de maior porque os desejos e interesses de uns podem conciliar-se com os desejos e interesses de outros. Fossem peixes os condutores nas rotundas e não seria muito diferente.

05 janeiro, 2026

SLOG IN

Não gosto de slogans, deixam-me sempre algo assustado. Posso compreender o seu poder mobilizador, mas é precisamente esse poder que me assusta.

04 janeiro, 2026

PARE, ESCUTE E OLHE (E DEPOIS LOGO SE VÊ)

Há três tipos de seres humanos: os que param sempre no semáforo vermelho para peões mesmo que não haja carros a passar; os que atravessam, ainda que com carros a aproximarem-se, obrigando mesmo se for necessário os condutores a desviarem-se ou a reduzir a velocidade; e, por fim, os que param se houver carros a passar, mas que também prosseguem naturalmente o seu caminho se não os houver. Os últimos, com um bocado de sorte, tendem a ser os mais felizes.

03 janeiro, 2026

LEVANTA-TE E CAMINHA

Podemos dizer que conhecemos bem uma cidade a partir do momento em que deixamos de a ver, como uma criança que tudo observa enquanto gatinha, mas que quando aprende a andar apenas deseja seguir em frente.

26 dezembro, 2025

O TÚNEL

Calhou encontrar na rua uma rapariga do meu tempo, uma daquelas pessoas que se vêem de dez em dez anos ou mais, por virem à terra durante esta época natalícia. O grande clássico nestes encontros, após despachar as secções do trabalho, filhos, ou netos se houver, é a maléfica passagem do tempo sobre as nossas pessoas, concluindo ela com um suspiro e o amarelo sorriso da derrota que a velhice só traz chatices. Eu, com autoridade filosófica, neguei, lembrando uma qualidade trazida pela idade: a sabedoria. Os olhos dela abriram e o sorriso amarelo deu lugar a um sorriso mais animado: «-Sim, é isso, a sabedoria!». O que eu não quis explicar é o que traz essa sabedoria. Se fui eu a acender a luz ao fundo do túnel, também não iria ser eu a apagá-la.

25 dezembro, 2025

CAGE FRESCO

Acabo de eleger a mais sagrada, mágica e ansiolítica música para tão ansiogénica época do ano:  Os 4' 33´´, de John Cage. Mas numa versão mais extensa, de modo a coincidir em horas e dias com os que duram as rançosas músicas e canções de natal. Como se não bastasse o massacre, ontem à noite e hoje até foguetes ouvi, tão desnecessariamente ruidosos como as palmas que agora se ouvem nos funerais e no que já foram em tempos os minutos de silêncio nos estádios. Lufada de ar fresco precisa-se para a alma, começando desde logo pelos ouvidos.  

24 dezembro, 2025

LAVAGENS

Ontem lá resolvi fazer limpeza à casa, mas com preguiça para mudar de roupa. Razão pela qual vou dar comigo a esfregar furiosamente a banheira, tendo como roupa de trabalho uma camisola de gola alta de cachemira e calças de bombazina. A minha primeira reacção foi processar o chique de tal momento e o meu elevado nível de sofisticação. Mas sendo também possuidor de um razoável sentido da realidade, foi devaneio de pouca dura. Se é verdade que uma duquesa de avental continua a ser uma duquesa, um plebeu de cachemira continua a ser um plebeu. O saldo acabou por ser positivo. Lavei a casa de banho, sem fazer qualquer lavagem ao meu cérebro.

23 dezembro, 2025

ESPAÇO-TEMPO

Resolvi fazer o passeio do pós-almoço maior do que é costume, passando por sítios pouco habituais àquela hora. Vivo numa terra suficientemente pequena para não ser grande, ou suficientemente grande para não ser pequena, o que faz com que tanto passe a vida a encontrar pessoas conhecidas, como passe anos sem as encontrar. Neste caso, num curtíssimo espaço de tempo de uns 15 minutos, encontrei cinco ex-alunos em quatro diferentes momentos (duas ex-alunas vinham juntas) do passeio. Nada de estranho numa terra pequena onde passo a vida a encontrar ex-alunos. Extraordinário, sim, foi a primeira aluna desta série corresponder ao meu primeiro ano docente (1986), as duas últimas ao último (2024-25) e, entre elas, dois alunos distribuídos por períodos intermédios, um rapaz (agora pelos 50 anos) dos anos 90 e uma rapariga (agora na casa dos 40) já deste século. Usei a expressão "espaço de tempo" no habitual sentido de período de tempo. Mas, bem vistas as coisas, talvez não seja a expressão mais apropriada, antes espaço-tempo, Segundo os padrões clássicos espaço e tempo, embora relacionados; são categorias autónomas. Neste caso, porém, espaço e tempo formaram um misterioso todo que me deixou um rasto de melancolia reforçada pela chuva miúda que me acompanhou até casa, onde finalmente limpei as lentes dos óculos como quem esfrega os olhos.

22 dezembro, 2025

O TRIUNFO DOS PORCOS

Entro no Uber, digo "Boa noite" e informo o motorista, que já sabia chamar-se Ricardo, que iam ali dois Ricardos. Como bom brasileiro, faz logo uma grande festa, logo dizendo que é Ricardo José. Eu digo que sou José Ricardo (mais um motivo de festa) e diz ele que esteve para ser também José Ricardo em vez de Ricardo José. O que faz um nome! Um nome que nada significa, uma mera etiqueta que nada diz da pessoa, mas suficiente para desde logo criar um vínculo entre dois desconhecidos tão diferentes que poderiam não aguentar uma conversa para lá dos 15 minutos que durou a viagem. Mas uma reacção normal devido à coincidência. Mas o que dizer quando se cria esse vínculo entre duas pessoas que descobrem ser da mesma religião, partido, ideologia, ou mesmo nacionalidade? Será que, ao contrário de um nome que nada significa, podem partilhar uma identidade? Não. Trata-se apenas de um instinto atávico que faz as pessoas sentirem-se partes de uma mesma tribo, de um "nós" que as distingue dos "outros", mas que enquanto indivíduos podem nada ter que ver entre si. Vendo bem, indivíduos de diferentes religiões, partidos, ideologias ou culturas podem ter mais em comum entre si do que entre indivíduos dentro da mesma tribo. Mas os tempos não estão virados para entender isso, os tempos, como noutros tempos, estão mais propícios para porcos a grunhir e roncar alegremente na sua lama tribal.

18 dezembro, 2025

OS ROSTOS E AS MÁSCARAS

 

Joseph Scharl |Máscaras, 1931


Põe-se uma máscara para ocultar o rosto. Mas podem também os rostos esconder ou disfarçar as máscaras. Dizia Paul Klee, um dos meus pintores preferidos, que a arte não reproduz o visível, ela torna visível. Este quadro, embora muito diferente da obra do pintor suíço (apesar da nacionalidade alemã), pode ser disso um bom exemplo. Quem são estes mascarados de 1931? Pois, não faço ideia. Sei, sim, que podem ser universais, e que quando na galeria me aproximei deles logo identifiquei um vasto grupo de gente que, em 2025, ocupa o nosso espaço mediático e que são identificáveis pelo rosto que aí exibem. Porque estas máscaras, mais do que ocultar, revelam, explicam, ajudam a ver o que não é visível a olho nu. Conhecendo o carácter dessas pessoas, não são estas máscaras que se tornam estranhas e desfasadas da sua verdadeira identidade, mas o contrário: percebemos que os rostos com que nasceram são as verdadeiras máscaras que escondem as máscaras em que se tornaram.

17 dezembro, 2025

AÇÚCAR

Fosse a política matéria alimentar e o seu fim deveria ser uma sociedade que garantisse a carne, o peixe, os ovos, os legumes, os cereais, as leguminosas e a fruta, promovendo uma vida decente e digna que fizesse as pessoas verem-se como fins em vez de indesejáveis grãos de areia que atrapalham a engrenagem dessa grande máquina que é o Estado. Mas são as pessoas que deverão procurar a melhor maneira de chegar ao açúcar que dá sabor às suas vidas. A função do Estado não é fazer as pessoas felizes, apenas impedir que se sintam infelizes por faltar o que faz delas cidadãos dignos e decentes. Agora, como vai a vida ser adoçada, se através de rebuçados, bombons, chocolates, chupas, gelados, bolachas ou bolos, se o chocolate é mais doce ou amargo, se os bolos são de pastelaria normal ou conventual, ornamentados ou não, isso cabe a cada um descobrir. E isso não depende de governos melhores ou piores, de regimes, de sistemas políticos. Ninguém deve estar à espera que seja o Estado a adoçar-nos a boca. Já ficaremos contentes se não a amargar demasiado.

16 dezembro, 2025

AUFHEBUNG


Este cartaz está espalhado por muitas paragens de autocarro de Madrid. É como se de repente fosse levado para a Madrid de Corin Tellado. Acontece que a Espanha de hoje está muito distante da Espanha de Corin Tellado. Mas embora a Espanha de hoje esteja muito distante da Espanha de Corin Tellado, a Espanha de Corin Tellado teima em não estar muito distante da Espanha de hoje.

15 dezembro, 2025

O NOVO ADÃO

Adam Rainer não foi um homem qualquer. Foi, até hoje, o único caso conhecido de nanismo e gigantismo na mesma pessoa, tornando ainda mais impressionante o carácter premonitório do seu nome. Adão, o bíblico, é não apenas o primeiro homem, mas símbolo da humanidade. Tendo Adam Rainer conseguido ser tanto anão como gigante, reúne todas as condições para, doravante, passar a ser o seu mais expressivo e fiel símbolo. 

13 dezembro, 2025

UBER HITS

No comboio, vão duas raparigas sentadas à minha frente. Quase a chegarmos ao Oriente, pergunta uma delas: "Apanhamos um Uber ou o metro?". Foi uma epifania. Pela minha cabeça passou de repente a clássica cena de tantos filmes em que alguém corre para a beira do passeio, gritando "taxi, taxi, taxi", até aparecer um que pára e leva a pessoa. Tão clássica como o cigarro na boca de Humphrey Bogart ou Lauren Bacall. Nada contra o Uber, até porque também uso. A questão está no modo como se apanha um Uber, que não é igual ao modo como se apanha um táxi. Um táxi apanha-se como se apanha uma ave ou um peixe com a cana. Não se sabe quando se apanha, ou mesmo se se vai conseguir apanhar. Apanhar um táxi existe num romântico mundo feito espontaneidade, contingência e imprevisibilidade, de sorte ou azar. O Uber não. Pega-se no telefone e logo sabemos onde está o carro, tal como o carro sabe onde nós estamos, demorando 6 minutos, sabendo-se ainda o nome do motorista, a marca e matrícula do carro, e quanto se vai descontar no cartão de crédito. Apanhar um Uber, é então assim como apanhar o comboio das 17.53 ou apanhar o metro que sabemos que passa de 3 em 3 minutos, ou seja, uma realidade que podemos prever e controlar, na qual se apanha o que já está previamente apanhado. Ou como pegar no telefone para fazer uma transferência bancária ou pagar a conta da luz. O próprio nome Uber em vez de taxi representa a morte de um conceito e, como tantas vezes acontece com a linguagem, a um novo conceito corresponde uma nova realidade. Repito: uso e aprecio. Mas a epifania foi evidente e vi de novo mais um pouco do meu mundo a ficar para trás pelo anjo da história.

12 dezembro, 2025

ISTO NÃO É O BANGLADESH

Hoje, de manhã, o comboio chega ao Oriente, saindo a esmagadora maioria das pessoas que iam na carruagem. Indo junto à janela, tive que ficar a aguardar, pois apesar de já estar mesmo mesmo mesmo juntinho ao corredor, ninguém me dava passagem. Ninguém, salvo seja. Um rapaz, não sei dizer se indiano, paquistanês ou bengali, parou, fazendo o gesto para eu passar. Agradeci para finalmente descer o degrau e chegar a Lisboa.

10 dezembro, 2025

O ELMO DE MANBRINO

Porto, 2024
 
Os tempos não estão de feição para a esquerda mais à esquerda e não é difícil perceber porquê. Com toda a sinceridade, dá-me pena assistir à quixotesca decadência da esquerda num tempo que pede mais a pragmática ignorância de Sancho Pança. Sendo o quixotismo a doença infantil da esquerda, esta bem precisava do seu Cervantes para aprender a rir de si própria.

09 dezembro, 2025

CONTINENTE NEGRO

 


E por falar em anjos, prosseguem as dificuldades dos meus alunos com a sua existência. Diante desta imagem no enunciado de um teste, diz um aluno tratar-se de uma mulher com asas, incapaz de perceber  que se trata da representação de um anjo de acordo com a iconografia tradicional. No século XIX, bastava ver um ser vivo com dois braços, duas pernas, cabelos compridos e uma crinolina, para logo identificar um anjo que nem sequer precisava de se chamar Angélica. Hoje, chapa-se um anjo nos olhos de um pueril efebo e o que vê ele? Uma mulher com asas. Entre o desvario romântico do século XIX e o realismo grosseiro do século XXI, resiste a eterna pergunta: o que é uma mulher? Talvez nunca venhamos a sabê-lo e ainda bem que assim seja.

08 dezembro, 2025

ANUNCIAÇÕES

Ainda há pouco dias, numa aula dedicada a um assunto de natureza epistemológica, referi-me à Matemática como ciência imaculada. Perguntei se sabiam o que significa imaculado e obviamente que não, o mesmo se passando, a fortiori, com mácula. Para começo de explicação perguntei se sabiam o que é a Imaculada Conceição e também não, aliás, nem dela tinham sequer ouvido falar. E lá expliquei, tal como já expliquei tantas outras coisas que qualquer criança de outros tempos sabia desde a escola primária e da catequese. Não sendo eu dado a desvarios narcísicos, sinto-me cada vez mais um anjo Gabriel desdobrando-se em múltiplas anunciações diante de mentes em estado virginal. Que ao menos o feriadinho faça muito bom proveito.

04 dezembro, 2025

ISTO NÃO É A TURQUIA

É verdade que isto não é o Bangladesh, mas também não é a Turquia, outro país infestado de muçulmanos. Em Istambul não se compram bilhetes nos autocarros. Adquire-se um cartão numa máquina que se vai recarregando. Um dia, entro no autocarro, encosto o cartão para descontar a viagem e descubro que já não tenho saldo. Fico meio parvo a olhar para o motorista sem saber o que fazer e quando me preparo para sair para chamar um Uber, faz-me sinal para eu esperar. Vira-se para trás (o autocarro ia quase vazio) e aborda uma rapariga de hijab que logo se levanta para ir pagar a minha viagem com o seu cartão. Eu, gratíssimo com o que me estava a acontecer, puxo da carteira para lhe pagar. Recusou. Insisto, e ela sempre a recusar, até que desisto, meio embaraçado. Quando chego à minha paragem (ela ia continuar) aproximo-me dela para de novo agradecer, juntando assim o meu sorriso de ateu nascido num país cristão ao seu sorriso muçulmano bem destacado pelo hijabe. Não, isto não é a Turquia.

03 dezembro, 2025

WHY?

 

Este soldado, fotografado por Robert Capa, foi morto no dia 18 de Abril de 1945, em Leipzig. A fotografia não ficou célebre pela morte de Raymond Bowman, de 21 anos, apenas mais um entre milhões de mortos, tanto nesta guerra como noutras, que o tempo tornou soldados desconhecidos, mas por ser The Picture of the Last Man to Die, o soldado que morreu na praia. Não numa praia da Normandia ou outra qualquer, mas na praia do tempo, neste caso, o fim da guerra. E se houvesse uma fotografia do primeiro soldado a ter morrido na guerra, a qual, de certeza, não existe? Talvez uma Picture of the First Man to Die fosse ainda mais esclarecedora. Uma fotografia daquele que morre numa guerra que acaba de começar, sabendo-se de antemão que chegará o dia em que irá começar a acabar. E lembrei-me de um certo poster, famoso nos anos 70 do século passado, no qual se via um soldado a sucumbir e por cima dele a pergunta que eu mesmo faço.

02 dezembro, 2025

ICEBERG

Uso bastante o advérbio "porventura", tanto na escrita como na oralidade, mas estou seriamente a ponderar deixar de o usar. Como um pequeno bloco de gelo separado do principal, não vá o prefixo transformar-se numa preposição. 

27 novembro, 2025

MEIO INVISÍVEL

Os que vêem o copo meio cheio e os que vêem o copo meio vazio, partilham, sem saberem, uma coisa em comum: não ver um copo que está objectivamente a meio. O que não deixa de ser normal, pois, como nos aviões, o lugar do meio é desconfortável, nomeadamente no que diz respeito às virtudes, embora seja lá que ela se encontra.

26 novembro, 2025

PENSAMENTO MÁGICO

«Christoph Kolumbus era o barbeiro de Bloomfield. Fazia parte da bagagem de Bloomfield e aparecia sempre, no final, como reforço. Era uma pessoa conversadora e de nacionalidade alemã. O seu pai era admirador do grande Colombo e, por isso, batizou o filho com o nome do navegador. Mas o filho, com o grande nome de um homem célebre, era barbeiro.»

Quisesse Alonso Quijano ser apenas ele próprio em vez de D. Quixote e passaria despercebido pelo mundo. Ser pobre e vulgar não é risível. O que torna Quixote risível é a ilusão ou delírio sobre a sua identidade. O mesmo efeito cómico consegue Roth numa única linha. O que torna esta passagem letal não é o pai atribuir ao filho o nome Colombo. É ele ser barbeiro e parte da bagagem de um homem importante. A moral da história é fácil: ridicularizar o pensamento mágico. Neste caso, envolvendo a magia do nome. Mudando de cenário, podemos ainda ver o pensamento mágico como um imaginário elevador identitário. Ainda com o nome como recurso, quem diz Colombo diz Salvador ou Benedita para se transformarem num verdadeiro "Salvador" e numa verdadeira "Benedita". Mas também ir, no Verão, às praias dos ricos, para viver a ilusão de ser rico. Ou alguém que, não sendo rico, consegue ter dinheiro para frequentar os restaurantes dos ricos, comprar as marcas de roupa dos ricos, ou mesmo os carros dos ricos. Ou um jovem urbano acreditar que é artista só porque através das roupas, cabelo e óculos compõe artisticamente um ar de artista, tal como em tempos se acreditava que bastaria entrar num café com um livro debaixo do braço para se transformar num intelectual. Quixotes não faltam. E só não são risíveis, estando, ao contrário do original, protegidos dos olhares alheios, porque num mundo de Quixotes é tão cego o que vê como o que é visto. 

25 novembro, 2025

UN ANGE EST PASSÉ

 


Num teste sobre David Hume coloquei quatro imagens no enunciado: uma gaivota, o Taj Mahal, o teorema de Pitágoras e esta que aqui se vê. Não um, não dois, mas três alunos chamaram-me para perguntar o significado desta imagem. Expliquei, não se fez silêncio, mas não sem sentir um anjo a passar bem fundo na minha alma.

24 novembro, 2025

EM SURDINA

Na sexta-feira fiz três exames auditivos para me provarem o que há muito sabia: preciso de aparelho. Mas fatalidade que tenho vindo a rejeitar, uma clara escapadela ao choque da minha obsolescência e decrepitude. Eu sei, recusar o aparelho para fingir contornar o inexorável coloca-me no mesmo nível daqueles velhos com perucas ridículas, ou que pintam o cabelo de um preto tão carregado que transforma a cabeça numa estrada alcatroada, ou aquelas velhas que borram a cara com cremes, rimel e um baton tão forte que mais parecem saídas de uma pintura expressionista. Mas hoje voltei a ter o meu choque de realidade logo na primeira aula. Aluno: "Stor, o que significa............?" Eu: "Caramba, no 11ºano e não sabe o que significa indiferença?!" Aluno: "não, ...............?". Eu:" Indiferente!? Vai dar no mesmo, indiferença ou indiferente, qual é a diferença". Aluno: "Não, stor, ........................?". Lá tive que recorrer à estratégia habitual, aproximando-se do aluno. Eu: "Pode então repetir?" Aluno: "Inferência". Eu: "Ahhhh, inferência!". E pronto, eis o miserável pântano no qual me vou enterrando cada vez mais mais. Mas quero lá saber, continuarei a resistir enquanto puder. Há um romance de David Lodge cuja personagem principal sofre de surdez, sendo esse, aliás, o tema central do romance. Já o li há uns anos, mas lembro-me bem de ele dizer que, ao contrário da cegueira, a surdez é risível, produzindo efeitos cómicos. Quero lá saber, insisto. Sei pelo menos que a minha resistência, sendo meramente mental e não física, livra-me da triste figura dos velhos de peruca ou cabeça alcatroada, ou das velhas que parecem saídas de uma pintura expressionista.

22 novembro, 2025

TECNOFEUDALISMO

Atravessei ontem de comboio uma extensa porção de Ribatejo rumo à estação do Oriente. Esta é a época do ano em que está mais bonito, mais verde sob uma luz coada, muita água devido às recentes chuvadas. Como não poderia deixar de ser, aproveito os lugares livres à janela para os olhos fazerem da viagem não só um  meio, mas um fim em si mesmo, como no poema de Kavafis. Já depois de Santarém vejo um grupo de pessoas a trabalhar no campo, embora sem perceber o quê. Uma visão impressionista, sei apenas que, ali juntas e pelas posturas, estariam a trabalhar. Isto foi poucas horas depois de ter lido, lá pelas cinco da manhã, ao acordar, uma entrevista de Varoufakis, devido ao seu recente livro. Talvez por isso, e pelo que já me tinha apercebido à minha volta, olho, como num jogo de ténis, para as pessoas a trabalhar naquela arcaica paisagem e para o interior do comboio onde ia toda a gente de olhos pregados no telefone, excepto uma senhora a dormir o sono dos justos. Desta vez a viagem não foi apenas uma viagem no espaço, mas também no tempo, unindo num mesmo pontinho cronológico o passado e o presente.

21 novembro, 2025

ÁGORA AGORA

Numa certa rua de uma pequena cidade, que é a minha, por meríssima coincidência, encontraram-se três professores de Filosofia. A professora e um dos professores encontraram-se e ficaram à conversa. Logo depois aparece o outro, que era eu, formando-se um trio. Se naquele momento estivéssemos a ser observados (mas não escutados) por um extraterrestre com bons conhecimentos de história humana embora péssimo a Geografia, e também com uma péssima noção do tempo devido a padrões temporais muito diferentes dos nossos, iria muito provavelmente concluir que estávamos na Grécia Antiga. 

19 novembro, 2025

TAMPÕES


«Conheço Taddeus Montag, o amigo de Zwonimir, pintor de tabuletas, mas que no fundo é caricaturista. É meu vizinho, mora no quarto 705. Já estou aqui há meia dúzia de semanas e, ao meu lado, Taddeus Montag passa fome e nunca grita. As pessoas são mudas, mais mudas que os peixes [...].»

Houve um tempo em que era S. António a dar sermão aos peixes. Resultado de um processo evolutivo socialmente modificado, o que vemos hoje são bem nutridas petingas em solo firme e de cujas potentes goelas são expectorados estrepitosos e desconchavados sermões, enquanto os velhos Santo Antónios deste mundo, lutando contra as ondas, deixaram de se ouvir. Entretanto, tampões nos ouvidos aconselham-se, e não é por causa da água.

18 novembro, 2025

SONATA EUROPEIA


Ao contrário de Ulisses, tenho alguma dificuldade com os nomes das árvores. Daí não saber o nome das que povoam a minha rua e que agora a pintam de amarelo e de várias tonalidades de vermelho, nas copas e no passeio. É nesta época do ano que ao sair de casa ou a chegar me sinto verdadeiramente na Europa. Um sentimento espúrio, devo reconhecer, pois não é só na Europa que existem árvores assim, e porque também a Europa sofre com temperaturas escaldantes no Verão, incluindo no seu coração, que ficou politicamente conhecido como Mittereuropa. A Europa tem as quatro estações, calor e frio,  luxúria solar e penumbra, azul e cinzento. E foi mesmo durante o Verão que duas guerras mundiais, embora bastante europeias, tiveram o seu início. Em suma, racionalmente, não há nada que obrigue a ligar a Europa ao Outono. Mas é assim que a minha livre imaginação funciona, desejar que a Europa seja um continente outonal, a estação em que melhor reconheço as cidades europeias onde a sua história foi sendo feita. O que não falta na sua história são ribombantes momentos a fazer lembrar certas passagens de Wagner. Mas o que sobretudo consigo ver na Europa, o continente onde a história tem mais peso, é um longo e contínuo adagio através do qual um fogo, como archê heraclitiana, vai fazendo e desfazendo tudo o que nela emerge. A Europa é um continente de nascimentos mas, até mesmo por isso, é por excelência o continente das melancólicas despedidas.















Budapeste 2025

17 novembro, 2025

MUROS


Numa exposição de arte contemporânea, nada me levou a tirar o telefone do bolso para memória futura, o habitual neste tipo de exposições. Uma excepção: este breve texto logo à entrada. A minha primeira impressão, e que logo me levou a fotografá-lo para não esquecer, foi a da sua enorme beleza. Impressão que mantenho meses depois e a qual não quero justificar pois a beleza não carece de justificação. Porém, se quisermos desconstruir o texto, resolvermos ir até ao subterrâneo húmus que fez medrar a flor, poderemos dar com um sentido latente cuja carga patológica se sobrepõe à sua força poética. A patologia de quem, descobrindo-se apenas rodeado de silêncio, chilreios ou zumbidos, de flores, árvores e cheiros bons, continua a sentir dentro da sua cabeça o peso esmagador dos muros dos quais pensara ter-se libertado.

16 novembro, 2025

O FANTASMA DE CANTERVILLE

James Tissot, O Círculo da Rua Royale [1868]

Há dias, pus os alunos a fazer uns exercícios de Lógica. Aquele tipo de aula em que o professor anda a circular pela sala para ir dando apoio. Ao passar num corredor entre duas filas de carteiras, vejo um papel escrito no chão. Baixo-me para o apanhar, pergunto a quem pertence e de imediato uma aluna responde que a si, recolhendo-o com ar satisfeito da minha mão, mas sem sequer para mim olhar. Uns dez minutos depois estou a ajudar uma aluna quando cai um telemóvel da carteira atrás da sua. Baixo-me para o apanhar e a aluna recolhe-o apenas abanando a cabeça de um modo discreto, isto, para falar de um modo eufemístico. Não sei dizer se estas duas situações em tão curto espaço de tempo terão relevância estatística ou se se tratou de mero acaso. Mas se pensar na quantidade de vezes em que dou prioridade ao passar numa porta ou agarro a porta, mantendo-a aberta para quem vem atrás de mim, sem observar qualquer reacção, na quantidade de vezes que digo «Bom dia» ou escrevo um mail de trabalho (enviar documentos e assim) sem obter resposta, estou então inclinado a pensar que se trata de uma tendência. O que me faz sentir, apesar de não passar de um vulgar plebeu, um aristocrata ou burguês do século XIX deambulando meio invisível pelas escadas rolantes de um moderno shopping center do século XXI.

15 novembro, 2025

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL

«Acontece que admirei tanto as luvas em amarelo-canário de Alexander como o seu chapéu - olhando para esse homem ninguém pode duvidar que ele veio directamente de Paris e do sítio onde Paris é mais Paris.» 

Há imensos de lugares em Paris, os quais, sendo Paris, não são onde Paris é mais Paris, sítios iguais aos de tantas outras cidades. Se uma pessoa fosse levada às cegas para várias cidades europeias, ou mesmo mundiais, e depois lhe pedissem para adivinhar onde está, não iria ser capaz, visto ser igual a tantas outras. Mas também há em cada cidade lugares onde logo a reconheceríamos, e nem sequer estou a pensar na Torre Eiffel ou no Big Ben. Com uma pessoa passa-se o mesmo. Sabemos que o João é homem, português, engenheiro, benfiquista e gosta de Bacalhau à Brás. Mas ser um homem em vez de uma mulher não é a coisa mais original. Ser português também não. E há milhares de engenheiros, benfiquistas e apreciadores de bacalhau. Onde o João é mais João é na individualidade que o distingue de todos os outros, um conjunto de experiências, características e memórias que são só suas, das quais pode ou não gostar. O mesmo se passa ainda com os países ou culturas. Não haverá um meio-termo entre um nacionalismo ou etnocentrismo serôdio e delirante, e um vazio universalismo que tende a menosprezar uma identidade cultural? Como o João, que não é superior ou inferior aos outros, é bom entender o que Portugal tem de mais Portugal ou o Ocidente de mais Ocidente. Um útil exercício para nos defendermos, não de inimigos que venham de fora para nos destruir, mas do radicalismo, tanto à direita como à esquerda, de quem já nasceu português ou europeu, o qual, como um tumor maligno, mina a coesão social.

14 novembro, 2025

NEWSPEAK

Dizia Fradique Mendes que Lisboa é uma cidade traduzida do francês em calão. Cento e tal anos depois, nem se dá ao trabalho de a traduzir do inglês.

13 novembro, 2025

DIÓSPIROS

Diferente sorte tiveram as palavras pudico e dióspiro. A primeira, sendo grave passou a ser dita como se fosse esdrúxula. Já a segunda, sendo esdrúxula, passou a ser dita como se fosse grave, isto, com claro benefício para a primeira e prejuízo para a segunda. As palavras esdrúxulas têm uma esdrúxula beleza e algumas bem a merecem, como é o caso de pudico. O pudor é uma das grandes conquistas da humanidade a qual, graças a ele, ganhou elegância, delicadeza e sobriedade nos gestos, no rosto, nas palavras ditas e sobretudo nas não ditas. Daí que uma pessoa com esse atributo mereça ser considerada púdica em vez de pudica, ainda que seja esta a correcta. O que raio aconteceu para os dióspiros terem passado a diospiros? Pensemos no ridículo de belas palavras como Diógenes, Andrómeda, Orígenes, Antígona, Penélope, Eutífrone, Eurídice, Édipo, Perséfone, Átila, diâmetro, triângulo, antílope ou ópera, tornadas graves. Um horror, uma degradação do original. Lembro-me da sensação de estranheza ao ver pela primeira vez a palavra asfódelo. Mas de imediato me rendi à sua beleza fonética. O que seria se, desgraçadamente, a palavra passasse a grave como aconteceu com o dióspiro? Um horror ainda pior. Mantendo-se fiel ao original, continua assim digna de uma pintura de Khnopff ou pré-rafaelita, de um parágrafo de Huysmans, de um verso de Baudelaire, Mallarmé ou Pessanha. Há gente que olha com indiferença, ou mesmo desprezo, para as palavras. O que conta é comer o fruto, querem lá saber como se chama. Não é assim, até por uma questão de respeito para com a dignidade da coisa. A Leonor de Camões, a Beatriz de Dante ou a Simonetta de Botticelli seriam as mesmas com outros nomes, sobretudo horríveis? Não. O que é belo e bom merece uma palavra bela e boa. O que não veio a acontecer com os nossos dióspiros, esse sumptuoso fruto descido ao nível da mais desdourada das vulgaridades.  

12 novembro, 2025

CASTA DIVA



Bem sei que uma alegoria não serve para ser interpretada à letra (ou imagem). O que lá está não é bem o que lá está, mas um modo de facilitar a compreensão de uma ideia muitas vezes complexa. Quase sempre resulta, mas há situações em que pode complicar. Creio ser o caso desta Alegoria da Castidade, de Hans Memling [1475] na qual a castidade surge ferreamente protegida. Fosse eu e faria exactamente o inverso. Em vez de fazer depender a castidade de dois ferozes leões, um denso rochedo rodeado de água e elevado face ao nível do solo e do afastamento da cidade, poria, como aconteceu a Lady Godiva, a mulher nua na praça central da cidade diante dos olhares lúbricos da nobreza, clero e povo. Porque a verdadeira castidade está na consciência e quando esta está limpa bem se podem dispensar os leões, rochas, água e o afastamento dos homens.

11 novembro, 2025

NA MELHOR PAISAGEM CAI A NÓDOA

Tenho em casa uma bela vista, uma paisagem rural com serra ao fundo. Amiúde me ponho à janela a contemplá-la enquanto bebo café ou chá, ou deixo derreter lentamente um pedaço de chocolate negro. Há dias, a magnífica vista passou a ficar conspurcada por um enorme cartaz no qual um emergente político lembra que os ciganos devem cumprir a lei. O cartaz é duplamente violento. Esteticamente, no modo como interfere na melancólica fruição da paisagem. Mas também por me lembrar, não que existem demagogos e charlatães, pois sempre os houve e haverá, mas a famosa de Kraus «o segredo do demagogo é fazer-se passar por tão estúpido quanto o seu auditório, para que este imagine ser tão esperto quanto ele». Ideia profundamente irritante, a de me saber rodeado de gente estúpida, pior ainda quando, no recato doméstico, uma pessoa se aproxima da janela para fruir de uma bela paisagem.  

10 novembro, 2025

VENTURA, VENTURA, VENTURA

Ele adorava a América. Nos dias em que a ração era boa ele exclamava: América! Quando via um primeiro-tenente «fino», dizia: América! E como eu era bom atirador ele chamava aos meus tiros: América!

Tendo ontem chegado já tarde à estação do Entroncamento tive de pegar um táxi convencional por a Uber já não fazer serviço a partir de certa hora. Entrei expectante sobre o tempo que iria demorar o taxista a dizer mal dos pretos, ciganos ou imigrantes em geral. Não disse, mas há que refrear o optimismo. Nem um minuto demorou para começar a falar mal do Entroncamento, isto é, do que deveria ter sido feito pela anterior câmara, mais isto e aquilo de errado nos últimos anos para, logo de seguida, desabafar três vezes que do que o Entroncamento precisa é de políticos que gostem de Portugal e dos portugueses. Achei estranho ele não ter dito políticos que gostem do Entroncamento e das pessoas do Entroncamento, mas logo pensando tratar-se de um taxista e, como se isso não bastasse, de um dos três concelhos de Portugal onde André Ventura foi eleito presidente de câmara, passou a fazer todo o sentido.

08 novembro, 2025

GOYA REVISITADO


O sono da razão produz os seus monstros? Produz. Como o sono dos sentimentos associado ao excesso de luz também produz os seus. Porém, verdade seja dita, também pode produzir os seus anjos, como se pode constatar nesta fotografia de Robert Capa*. É de 1940, no México, e trata-se do regresso a casa de dois políticos regionais após uma ida à capital. Pois bem, alguém imagina dois políticos tão despidos dos seus habituais papéis para assumirem este íntimo, e até comovente, envolvimento físico entre ambos? Só o sono, o adormecimento, o desvanecimento da razão o poderia conseguir. Estes homens estão mergulhados nas trevas do sono com o benéfico efeito que podemos ver. Mas há a luz do dia à sua volta e, fosse de noite, certamente não iria deixar de haver uma luz de presença. E é assim que deve ser.

*A má qualidade da reprodução deve-se à má qualidade do meu telefone.

07 novembro, 2025

CONTRA-ILUMINISMO NA ESCOLA PORTUGUESA


A luta entre a luz e as trevas é eterna. Mais perto de nós, o momento mais significativo dessa luta foi a reacção contra-iluminista ao iluminismo do século XVIII. Ao que parece, as luzes da razão preparam-se para passar de novo um mau bocado, estando o palco da história a ser ocupado pela estupidez,  boçalidade e irracionalidade. Grave, muito grave, é ver a própria escola cúmplice deste processo. Daí custar a engolir ver todos os dias estes autocolantes junto ao bengaleiro nas salas de aula onde trabalho. Como é possível dizer a um jovem que a sua atitude conta, convidando-o a poupar luz? Como se não bastassem já as redes sociais, fora o resto.

06 novembro, 2025

O TAMBOR


«As pessoas continuavam a chegar  de Berlim e de outras cidades. Eram pessoas que falavam em voz alta, gritavam e mentiam aos berros para calar a voz da consciência.»

Dizia Apparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, mais conhecido por Barão de Itararé, que o tambor faz barulho mas é vazio por dentro. Ainda que fazendo a frase perder a graça, corrigiria a adversativa para a transformar em causal: o tambor faz barulho porque é vazio. E, já agora, quanto mais vazio mais barulho faz. O barulho é sem dúvida uma importante categoria política que revela uma enorme falta dela com o intuito de adormecer as consciências dos outros.