sábado, 28 de Novembro de 2009

EVA SEM PECADO


Diz Eva Mendes que não se sente sexy e que gostaria de interpretar o papel de uma freira.
Cá para mim, por este andar, ainda irei ver o Woody Allen a fazer de Rambo 5.

O CORSÁRIO

Oscila sempre
no horizonte líquido da tarde
a rosa-dos-ventos
gravada a luz
no deck deste regresso.

Perdida a bruma e a rota esquecida,
estranha é a ilha, íntimo o cais.

MORATÓRIA PSICOSSOCIAL

No Jornal Torrejano desta semana vem o seguinte anúncio:
"Sou um jovem solitário com 41 anos que procura uma jovem entre os 37 e os 47 anos que queira ter um bom amigo honesto ou uma futura relação".
Eu percebo a ansiedade do nosso jovem. Mas também há que ter calma. O melhor será esperar pelos 60 anos quando estes jovens, actualmente ainda com 41 e 47 anos, forem finalmente adultos.

sexta-feira, 27 de Novembro de 2009

MACBUDA




Poderá parecer bizarra a ideia de um mosteiro budista na Escócia. Convém, no entanto, não ser precipitado no juízo.
Por que razão não nos parece bizarra a ideia de a Europa seguir uma religião cuja génese está numa seita do Médio-Oriente? Por que razão não nos surpreende a presença de uma cruz? Nem a nossa filiação à religião judaica? Por causa da tradição. Mas uma tradição baseada em factos puramente contingentes.
Nós, na Europa, na Europa que vai de Lisboa a S. Petersburgo, passando pelas aldeias irlandesas e as altas montanhas da Escócia, não somos judaico-cristãos do mesmo modo que o urso-polar está programado para viver em terras frias e a arara em terras quentes. Nós somos judaico-cristãos porque um conjunto de circunstâncias levaram a que tal acontecesse. Acontece que puros e microscópicos acasos poderiam ter feito com que as coisas fossem completamente diferentes. Bastaria S. Paulo morrer afogado ou Constantino ter uma personalidade diferente.
Nós, porém, estamos habituados a olhar para certas realidades históricas como se fossem essências eternas e imutáveis.
Mas não são. Por que razão, na Bósnia, europeus loiros e de olhos azuis se viram para Meca para rezar? E por que razão não há procissões na Dinamarca nem os holandeses pedem o que quer que seja a Nossa Senhora? Por causa de factos contingentes.
Ora, poderia ter acontecido, séculos atrás, por razões também contingentes, que a Europa tivesse sido "evangelizada" por monges budistas. E assim já não nos surpreenderia a existência de um mosteiro budista na Escócia. Haveria milhares deles na Europa. E porque seríamos todos budistas. Seria tão normal ver um templo budista como uma Pizza-Hut. Estranho seria ver nesta Europa um templo com uma cruz em cima.
A história é um processo aberto e dinâmico. Sempre foi e sempre será. Mas há quem olhe para a História como se esta reproduzisse as leis da natureza.

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

OS DIAS REPETIDOS

Há um deus antigo
sentado, à porta do meu dia.

Não traz palavras nem prenúncio de um gesto.
Segue a minha voz,
do início da luz
ao recorte da noite.

quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

A MINHA DESCOBERTA MUSICAL DE 2009



FILOSOFIA DE PONTA



"Ontem de manhã, bem cedinho, no relvado do Dragão, Helton foi visto a conversar com Jesualdo durante largos minutos. No período aberto aos jornalistas pouco mais se passou de transcendente, apenas essa conversa que podia nem querer dizer nada."

Esta frase, tirada daqui, é uma excelente introdução ao idealismo hegeliano, no qual existe uma coincidência entra a transcendência e a imanência. Ora, partindo do princípio que eu sei ler português, o jornalista explica que a conversa entre Helton e Jesualdo é do domínio do transcendente. Mas, ao mesmo tempo tal conversa ocorre durante um treino do FC Porto, que será assim uma espécie de apogeu da imanência.
Agora percebo porque gostam tanto os portugueses de ler jornais desportivos. Cada povo tem a filosofia que merece.

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

CRISIS? WHAT CRISIS?



Eu fico um bocadinho desorientado sempre que me vêm dizer que o século XX foi o pior de todos os séculos, o século da barbárie. Ou que existe hoje uma tremenda crise de valores. Ou que o mundo está dominado pela cobiça, ganância, ambição, dinheiro, egoísmo, pelo prazer ou futilidade. Ou que, pensando no futuro a partir do que temos hoje, é de temer o pior.
Assim sendo, eu gostaria que uma dessas pessoas fizesse o seguinte exercício.
Depois de estudar história, de conhecer a vida das pessoas desde a Antiguidade, de conhecer a psicologia humana através dos grandes clássicos da literatura, Homero, Sófocles, Plauto, Dante, Shakespeare, Cervantes ou Tolstoi, sem esquecer o clássico dos clássicos, a Bíblia, gostaria que me explicasse o que inventou o século XX de terrível que não fosse conhecido noutras épocas e o que haveria de bom noutras épocas que hoje, desgraçadamente, já não tenhamos o prazer de conhecer.

TINA MODOTTI (1896-1942)



segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

DIETA

Diz o Barão d'Holbach que a alma tem necessidade de ideias como o nosso estômago de alimentos. Está cheio de razão.
Mas não pude deixar de me lembrar de uma coisa que comi ontem ao almoço, tendo andado, por sua causa, todo o dia a fazer a digestão. Penso, por isso, que certas ideias são como certos alimentos. Devemos evitá-las ou então ingeri-las com base num rigoroso programa dietético.

ESTÁDIO DA LUZ-II

Aqui

domingo, 22 de Novembro de 2009

ESTÁDIO DA LUZ


A frase “Liberdade, igualdade e fraternidade” decorre de um período histórico conhecido por Época das Luzes ou Iluminismo. Chama-se assim porque se acreditava que a razão seria um farol que tiraria a humanidade da escuridão, da ignorância, da superstição, da pobreza.
Tal como um arquitecto projecta no seu ateliê uma cidade perfeita, o filósofo iluminista acreditava ser possível construir racionalmente uma sociedade ideal sob o lema “Liberdade, igualdade, fraternidade”.
Das três palavras, a segunda é a mais complicada, embora houvesse quem tentasse passá-la à prática. Sabemos hoje qual foi o resultado. Estados totalitários e repressivos. Milhões de inocentes mortos, presos, torturados, exilados. Sociedades cinzentas apesar de uma sofisticada propaganda que passava a imagem de um homem novo.
Há, porém, situações informais em que um sentimento de igualdade pode espontaneamente ocorrer. Comecei por falar do Iluminismo, entro agora no Estádio da Luz.
Quando o estádio enche para ver o Benfica ou a selecção, há uma experiência social de igualdade. Estamos todos a puxar para o mesmo lado. O interesse de um é o interesse de 60 000. A alegria e a tristeza de um são a alegria e a tristeza de 60 000. E conversa-se e festeja-se com o vizinho do lado, ainda que não saiba o seu nome ou profissão, se é engenheiro ou sapateiro, se vive num bairro social ou numa vivenda de luxo. Ora, se isto não é igualdade vou ali e já venho.
Pensar em igualdade de um modo saudável, só será possível de uma forma natural e espontânea, nunca por decreto-lei e com um controlo policial. Ninguém, no Estádio da Luz, é obrigado a sentir-se igual ou a ser igual.
Vendo bem, mesmo ali somos diferentes. Uns emocionam-se mais, há quem esteja calado, há quem ouça o relato enquanto vê o jogo, há quem feche os olhos nas jogadas de perigo, há quem beba cerveja, há quem beba sumo, há quem não beba nada. Mas sentimo-nos todos iguais. Ou melhor: somos efectivamente iguais.
Pronto, pronto, já sei que a esta hora já há quem me chame lírico e diga que a vida não é o Estádio da Luz. Ora, aceito que posso ser lírico quando passeio pelo campo e oiço os passarinhos e chilrear. Mas também sei que há sociedades mais igualitárias do que outras sem ter sido preciso um Partido ou um semideus para implementar a igualdade. Foi conquistado naturalmente. Como? Pela cultura, pela religião, pela educação.
Curiosamente, alguns dos países onde a igualdade é maior contam-se entre os mais ricos do mundo. Ou seja, onde há gente muito rica. E já que estamos no domínio da curiosidade, é também engraçado pensar que nesses países onde a igualdade é maior, a luz do sol faz-se sentir muito menos do que em países como Portugal, onde as desigualdades são mais chocantes, e no Inverno as noites são bem maiores do que os dias.
A luz do Estádio da Luz não é, decididamente, a luz do Sol iluminista. Até porque, se há luz, é porque é de noite. Sem o perigo do Sol ardente de certos ideais fazer mal às cabeças das pessoas.
In Jornal Torrejano

sábado, 21 de Novembro de 2009

TOMAR - CONVENTO DE CRISTO

MORANGOS COM AÇÚCAR

Robert Spaemann, numa obra chamada Felicidade e Benevolência-Ensaio sobre Ética, caracteriza a ética epicurista como sendo "uma espécie de solipsismo do momento presente". A lembrança do passado e a expectativa acerca do futuro não são experienciados como estados de verdade mas estados funcionais de prazer vinculados ao momento presente . O indivíduo fica, deste modo, preso ao seu presente, a uma espécie de eterno presente. A própria libertação epicurista do medo e da esperança, reforça esse solipsismo. Ora, se tal acontecer, descemos praticamente ao nível de consciência de um animal ou de um bebé, cuja existência se limita a uma exploração do prazer e fuga à dor, num eterno presente do qual nem sequer têm consciência.
Uma excelente notícia.

NÃO VÁS TRABALHAR, MALANDRO

Quando era garoto, ainda que não precisasse, gostava de trabalhar durante as férias. Perto de Torres Novas havia uma fábrica na qual trabalhei vários anos seguidos, muitas vezes para, em turnos, fazer trabalhos duríssimos como carregar contentores durante 8 horas quase sem parar.
Numa idade em que gostava de me levantar às duas da tarde, tinha que me levantar cedíssimo para ir trabalhar. Em Setembro, andei na apanha da maçã, com temperaturas de 30 e tal graus. Às 7 e 30 da manhã lá estava eu à espera do tractor que me levava para o campo.
Trabalhei ainda numa fábrica de rações, num armazém de tecidos, dei serventia a pedreiro, andei a apanhar passas (trabalho duríssimo, todo o dia inclinado), rocei erva (outro trabalho terrível).
O meu pai era comerciante. Andava eu ainda na escola primária e, durante as férias da Páscoa, do Natal ou do Verão, ia para a loja ajudar. Atendia pessoas ao balcão e fazia recados. Ainda mal tinha acabado de aprender a tabuada e já andava nos bancos, nas finanças, nos correios, fazendo recados.
Senti sempre um enorme orgulho em trabalhar. E quanto mais duro era o trabalho mais orgulho eu sentia. Sentia-me responsável, adulto, integrado na própria realidade e consciente das texturas sociais. Convivi com operários, com trabalhadores agrícolas e aprendi com todos eles. Pensando nisso agora, estou certo de que isso contribuiu para me tornar num adulto capaz de controlar os seus impulsos, enfrentar dificuldades e fazer sacrifícios em caso de necessidade.
Daí a minha perplexidade perante notícias como esta. Repare-se: ainda que seja trabalho domiciliário e leve. Os jovens portugueses estão mesmo condenados a não poderem crescer. Na escola, como se sabe, reina a arbitrariedade, a irresponsabilidade, o desleixo. Mas depois também não os deixam trabalhar, ainda que não tenham um pingo de inteligência ou a mínima vontade de estudar e de andar na escola.
Eis o que faz fazer política a partir dos bares e discotecas do Bairro Alto. Trabalho? Naquelas cabecinhas cheias de casamentos homossexuais, legalização das drogas leves e de proibição de rodeos em Portugal, o trabalho não deve passar de um conceito estudado nas universidades e o fato de macaco uma roupinha muito pouco cool de acordo com o gosto tão left-trendy dos meninos do Bloco de Esquerda.

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

DOMADORA DE TEMPESTADES

Aos 2 minutos e 20 segundos deste discurso, depois de o povo gritar "O Führer comanda, nós seguimos!" grita o inflamado ministro da Propaganda: "Daqui para a frente o nosso lema será: Ergue-te, povo e liberta a tempestade!"

Isaiah Berlin, num texto de 1972, The Bent Twig - On the Rise of Nationalism, estabelece uma relação entre o romantismo alemão (Movimento que ficou conhecido por Sturm und Drang, ou seja, Tempestade e Ímpeto) e o nacionalismo exacerbado. Aliás, Isaiah Berlin lembra, em diversas ocasiões, que as ideias ao serem lançadas no mundo ganham uma vida própria, fugindo ao controle do seu criador que, muitas vezes, tinha com elas a melhor das intenções, acabando depois por estarem na origem de movimentos que representam precisamente o seu oposto. Aconteceu, por exemplo, com Kant. Ou, ainda mais gritante, com o polido, iluminado e empirically-minded David Hume.

Em suma, com as ideias não se brinca. Sendo assim, temos aqui uma interessante tarefa para a filosofia: domadora de tempestades. E qual a melhor maneira de domar tempestades? Domando as próprias ideias. Há um nome para isso: cepticismo.

DIA MUNDIAL DA FILOSOFIA


Rembrandt, Filósofo
Comemora-se hoje o dia mundial da Filosofia.
Sem querer, lembrei-me de uma conversa com o meu filho mais novo, teria 5 ou 6 anos, em que eu lhe explicava para que serviam os castelos. Pergunta-me então ele por que razão não os desmontam se nos nossos dias já não servem para nada.
A pergunta dele é a pergunta que farão algumas pessoas acerca da legitimidade da filosofia, após perceberem que não serve para construir pontes e casas, fazer previsões meteorológicas, conservar os alimentos ou curar doenças. Sim, para que serve a Filosofia?
No fundo, até são bem capazes de ter razão. De facto, objectivamente, a Filosofia não serve para nada. Mas se calhar o problema até nem está na Filosofia mas mais nas pessoas que perguntam para que serve a Filosofia. Tivessem elas nascido formigas, moscas, berbigões ou até mesmo animais mais inteligentes como cães, gatos, cavalos ou macacos e nem chegariam sequer a perguntar para que serve a Filosofia ou a ter consciência da sua inutilidade.

quarta-feira, 18 de Novembro de 2009

A UM DESAFIO NUNCA SE FOGE


O José Albergaria, simpaticamente, desafiou-me a completar as seguintes frases:

Eu já tive...
Eu nunca....
Eu sei....
Eu quero...

Aqui vai então:

Eu já tive... orgulho em ensinar.

Eu nunca.... vi o fundo do túnel sem luz.

Eu sei.... perguntar "Que sais je?"

Eu quero...
cada vez menos coisas.

terça-feira, 17 de Novembro de 2009

FALA DE DIDO A ENEIAS

Se eu falasse,
havia de dizer-te
que o fogo nas tuas mãos
era o horizonte do fatum a arder.

Mas a tua ausência
procura-me nos corredores do palácio,
entra na sala,
onde já não te espero,
deixa, à minha volta,
taças e túnicas e uma última espada,
os despojos do silêncio.

segunda-feira, 16 de Novembro de 2009

OS BOLSOS

Nicholas Hilliard

Antigamente, ia-se ver cinema ao Monumental, ao S. Jorge, ao Tivoli, ao Império, ao Éden. Templos faraónicos para se verem filmes em ecrãs gigantes. Torres Novas, pequena vila, tinha uma sala de cinema com 1000 lugares e um ecrã em conformidade com o tamanho da sala.
Entretanto, as salas e os ecrãs encolheram. Encolheram ainda mais com a televisão. Hoje, os mesmos filmes que se viam nos templos faraónicos são vistos em portáteis com alguns centímetros quadrados. Ora, será isto uma novidade civilizacional, filha da tecnologia? Sim, parece. Mas não é.
Ao mesmo tempo que homens como Ticiano, Tintoretto ou Rubens pintavam as suas telas gigantescas, o inglês Nicholas Hilliard pintava as suas miniaturas. Enquanto para apreciarmos os primeiros temos, como no antigo Monumental, que nos afastar, as miniaturas de Hilliard foram feitas para serem intimamente contempladas na palma da mão.
Ao vermos hoje um filme num portátil a nossa sensação não deve andar muito longe daquela que teria uma pessoa do século XVI com uma miniatura na mão: a sensação de posse de um bem que passou a fazer parte da nossa intimidade. Formalmente, o filme no portátil e a pintura na palma da nossa mão são os mesmos que se vêem na faraónica sala de cinema ou no farónico museu. O que muda é a nossa relação com o objecto. Uma relação que passa a ser quase infantil. Sente-se o que sente uma criança que passa a ter um brinquedo na mão depois de o ter visto no alto de um expositor ou numa montra que a transcende.
Ver E Tudo o Vento Levou num portátil nos joelhos durante uma viagem de comboio ou ver uma pintura de Ticiano reproduzida em miniatura num livro que temos na mão, é como se a nossa consciência tivesse bolsos nos quais os guardamos tal como uma criança guarda sorrateiramente os seus rebuçados.

domingo, 15 de Novembro de 2009

EVANGELHO SEGUNDO HERMÈS


O PÚBLICO de ontem trazia um suplemento de luxo, a Primus, revista que é editada juntamente com o jornal uma vez por ano. Graficamente luxuosa, nela só encontramos produtos de luxo. Relógios Baume &Mercier a 6000 €. Braceletes Hermès a 64.000 €. Cozinha gourmet. Luxuosas decorações, carros de luxo, viagens de luxo.
Podemos achar tudo aquilo supérfluo e que seria preferível viver num mundo onde nada daquilo existisse e em que seríamos todos iguais na humildade e modéstia. Não me parece. Se nada daquilo existisse, muito provavelmente viveríamos ainda pior numa igualdade ainda mais humilde e modesta.
É muito mais engraçado viver num mundo onde se sabe que tais produtos existem mesmo que não tenhamos acesso a eles do que num mundo onde o luxo não existisse. O pobre, num mundo onde não existisse o luxo, seria ainda mais pobre. A necessidade que muitos de nós sentem em chegar àquele mundo acaba por favorecer o mundo no seu todo. O problema dos pobres não são os ricos. Não é por haver relógios de 6000 € que há pessoas a viver mal. Em primeiro lugar, há pessoas que vivem mal simplesmente porque não são capazes de viver bem. Depois, há pessoas que vivem mal porque os países em que vivem são politicamente mal geridos. Ou porque são efectivamente pobres.
O luxo é a cenoura presa à cabeça da sociedade para a fazer mexer. Os pais sabem que não são ricos, mas sabem que são mais ricos do que foram os seus pais, esperando ainda que os seus filhos possam vir a usufruir de uma riqueza que eles próprios não conseguiram alcançar.
A humanidade pode não ficar muito bonita neste retrato. Mas confessemos que não é fácil trocar um relógio de luxo e um carro com estofos de cabedal por meia-dúzia de linhas do Evangelho.

ONANNYSMO

Mas está a ficar tudo doido? È a única conclusão a que posso chegar depois de ler isto. E com dinheiro do governo? Nunca, mas nunca pensei que a chegada dos anos 60 ao poder pudesse vir a ser tão catastrófica e politicamente totalitária.
Estamos perante o que podemos chamar de estado-onannysta, ou seja, o estado transformado numa autência nanny dos seus incapazes súbditos. Mal por mal, antes o fascismo de Salazar. Esse ao menos mandava-nos beber vinho para dar de comer a um milhão de portugueses.

sábado, 14 de Novembro de 2009

HÃ?

Ontem, numa viagem ao longo da A23, passei três vezes por carros avariados à beira da estrada e com os respectivos ocupantes à espera de auxílio. Acontece que ontem foi Sexta-feira, 13. De certezinha absoluta que os desesperados ocupantes daquelas viaturas não resistiram a associar o seu problema rodoviário a esse facto. Sexta-feira, 13 foi, na verdade, um dia de azar para eles. Só que o facto de a sexta-feira, 13 ter sido um dia de azar não significa que se tenha azar porque é sexta-feira, 13.
A superstição é muito fácil de rebater. Quantos milhares de carros circularam ontem pelas estradas portuguesas sem quaisquer problemas? E quantos carros avariam sem ser numa sexta-feira, 13? Sei lá, numa quarta-feira, 12, numa segunda-feira, 25, num sábado, 8?
Vamos supor que os ocupantes daqueles três carros têm mesmo uma certa propensão para a superstição, para o sobrenatural. Assim sendo, depois de estarem parados numa auto-estrada com um carro avariado, com os incómodos e problemas que isso acarreta, será praticamente impossível explicar-lhes, racionalmente, que não foi por ser sexta-feira, 13 que tal aconteceu.
Ora, quando uma pessoa não religiosa pretende racionalmente explicar a uma outra religiosa que as suas crenças não têm qualquer fundamento, passa-se qualquer coisa de análogo.
Quem quer acreditar muito dificilmente conseguirá não acreditar. É, por isso, um diálogo de surdos. Não vale a pena.

PÁSCOA É QUANDO UM HOMEM QUISER

Em Torres Novas já há iluminações de Natal. Anteontem, dizia-me um colega que já tinha comido bolo-rei em casa da mãe.
Juro, mas juro mesmo, que no próximo dia 31 de Dezembro irei comemorar a entrada no novo ano com 12 amêndoas da Páscoa.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

TETRALOGIA

Há uns anos, achava muita piada àquela coisa do John Zorn dizer que gostaria de tocar a Tetralogia de Wagner em meia-dúzia de segundos. Hoje, acho bem mais interessante a possibilidade de transformar uma música de meia-dúzia de segundos numa tetralogia. Os anos não perdoam.

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

FABRICO PRÓPRIO


Um dos grandes mistérios que inquietam a minha alma não está escondido num lugar recôndito do universo. Nem está nas profundezas da minha alma. Está numa rua bem perto de si: naquelas pastelarias que anunciam com orgulho e vaidade que têm fabrico próprio.
O conceito de fabrico próprio é metafísica pura e dura e a sua compreensão é um osso duro de roer. Pretende criar a ideia de que aquela pastelaria tem em relação às outras uma enorme vantagem. Ora, é aqui que me sinto extremamente confuso.
Imaginemos um bolo de arroz numa pastelaria que não tenha fabrico próprio. Como não tem fabrico próprio, não foi fabricado naquela pastelaria. Ora, eu, como cliente, poderia ficar desconfiado.
Só que aquele bolo foi mesmo fabricado. E se foi fabricado serei obrigado a pensar que a fábrica que o fez tem fabrico próprio. Então, e se eu comprasse o bolo na fábrica (que tem venda directa ao público) em vez de o fazer na pastelaria que não tem fabrico próprio? Será que o bolo fabricado na fábrica com fabrico próprio é diferente do bolo vendido numa pastelaria sem fabrico próprio mas que foi feito na fábrica com fabrico próprio?
O mesmo bolo não é o mesmo bolo na fábrica e na pastelaria? Nós pomos lado a lado um bolo de arroz comprado na pastelaria que tem fabrico próprio com outro bolo de arroz comprado na pastelaria que não tem fabrico próprio mas que foi comprado na outra que tem fabrico próprio. Será que são dois bolos diferentes?
Imaginemos que os bolos pensavam e tinham sentimentos. Que amavam, sofriam, tinham desejos e consciência de si. Enfim, que tinham lido Sartre, Camus e ouvido a música dos Joy Division antes de irem para a montra da pastelaria. Será que um bolo vendido numa pastelaria sem fabrico próprio teria mais razões para uma crise existencial do que um outro vendido na montra de uma pastelaria com fabrico próprio? Mas como assim? São bolos iguais. Com o mesmo sabor, textura, cor, cozedura. É tudo o mesmo.
Como pode o mesmo ser um outro? Mas que raio de relação dialéctica será esta entre a mesmidade e a alteridade? Eu avisei que a metafísica é um osso duro de roer. E há muita pastelaria e padaria em Portugal que nada contribui para ajudar a roê-lo.
In Jornal Torrejano

quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

ERIC ROHMER - A MARQUESA D'O







DURKHEIM NA PASSAGEM DE NÍVEL


Muito, mas mesmo muito longe de mim, querer vir aqui explorar o trágico suicídio de Enke de um ponto de vista pessoal. O grande guarda-redes deixou uma carta de despedida e, por respeito perante a sua memória e privacidade, espero que o seu conteúdo nunca venha a ser publicamente revelado. Mas, ao mesmo tempo, o suicídio de um alemão levou-me a pensar no seguinte.
Existe hoje uma certa concepção política e sociológica da felicidade. Ou seja, a ideia de que a felicidade de cada indivíduo está muito dependente das condições sociais, políticas e económicas de um país. E, se virmos bem, até acaba por ser verdade. É mais fácil um dinamarquês sentir-se feliz do que um nigeriano. Acredito que os portugueses que vivem no Luxemburgo serão lá mais felizes do que se tivessem ficado no vale do Ave ou na sua aldeia beirã ou alentejana.
Mas há que igualmente perceber que existe um território pessoal, impermeável a quaisquer condicionalismos de natureza política.
Embora o Estado tenha obrigações perante os seus cidadãos, o Estado jamais deverá querer tornar as pessoas felizes. Ou manifestar concepções de felicidade. O Estado serve para fazer escolas e dar educação aos seus cidadãos, fazer hospitais e contribuir para ajudar esses cidadãos na doença, construir cidades para seres humanos, apoiar a cultura, etc. E chega. A partir daqui fica ao critério das pessoas saber o que as faz felizes ou infelizes. Quase sempre que o Estado quer fazer as pessoas felizes, acaba por contribuir para a sua infelicidade.
Enke, sendo alemão não se matou por viver na Alemanha, uma das maiores economias do mundo, um dos países onde 4/5 da população mundial mais ambicionaria poder viver. Fosse ele nigeriano e provavelmente não se teria suicidado, ocupado que andaria com a sua sobrevivência.
A alma das pessoas não tem é judia nem grega, não é escrava nem livre, não é homem nem mulher. E foi essa alma que levou o grande guarda-redes a libertar-se de si mesma.

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

PUNK IS NOT DEAD


A avaliação dos professores, ao pé disto, é uma nota de rodapé sem importância.

TIMIDEZ




Eu sempre gostei de pessoas tímidas. Talvez por eu próprio também ser tímido. É por isso que esta aguarela do João Alfaro me chamou a atenção. Toda ela converge para o modo como a mão esquerda agarra os dedos da mão direita. Os grandes líderes, as pessoas que julgam ter as melhores ideias, prontas a serem transmitidas, que gostam de ser o centro do mundo, que se afirmam a partir do modo como dominam os outros, que são possessivas, são pessoas que gostam de apontar o dedo. E quanto mais esticado melhor. Um dedo esticado num braço também ele esticado. Todos aqueles que gostam de construir um mundo à sua imagem e semelhança e que julgam que o mundo nada é sem eles, vivem de esticar o dedo. Até Deus, no momento em que cria Adão, como revela Miguel Ângelo, o faz de dedo bem esticado, enquanto o dedo do segundo ainda se encontra flácido, como se ainda não estivesse a entender o que lhe está a acontecer.
O que se passa com esta rapariga é precisamente o contrário. Em vez de apontar para o mundo, em vez de ter as mãos livres para que possam estar preparadas para agir, prefere antes agarrar-se a si própria. Agarra-se a si própria como se soubesse que só consigo própria poderá contar. Aliás, o contraste com o umbigo prestes a manifestar-se é aqui muito interessante. O umbigo quer manifestar-se, expor-se perante os olhares do mundo. Direi mesmo que quase se vislumbra sem disso a rapariga ter consciência. Como se o umbigo tivesse vontade própria e autonomia face à sua consciência. Só que as mãos traem esse desejo de exposição, os dedos fecham o que a camisola está prestes a abrir.
É precisamente isto que se passa com as pessoas tímidas. Daí a enorme subtileza deste retrato.

UM ARGUMENTO CRUCIFICADO

Há qualquer coisa de paradoxal neste post do Jorge. Afirma que a rejeição de um símbolo religioso numa escola põe em causa a nossa identidade. Acontece que um dos aspectos que mais contribuiram para a nossa identidade foi a separação entre a religião e o estado.
A religião tornou-se coisa do foro privado, íntimo, pessoal e, ainda que vivida institucionalmente (igreja), está circunscrita a um domínio socialmente autónomo.
Ora, defender a presença de um símbolo religioso num local público, com o pretexto de que isso contibui para reforçar a nossa identidade, é o mesmo que dizer que essa identidade é reforçada, fazendo precisamente o contrário do que está na sua origem. Não dá.

O HOMEM NO ELEVADOR



Tenho um saco cheio de bons livros para ler. Nesse saco tenho ainda alguns cd´s para ouvir. Trago ainda uma pasta com um portátil onde poderei ver dois ou três excelentes filmes. Acontece que estou trancado num elevador devido a um corte de energia embora não esteja completamente às escuras pois o elevador tem luz própria. Fraquinha, mas tem. Felizmente, vinha do supermercado e alguns géneros alimentares impedem-me de passar fome. O problema energético é grave e terei que passar o fim-de-semana ali trancado.
Ora, foi isto que me veio à cabeça há pouco enquanto tomava duche e pensava no facto de as pessoas dos países de leste, no tempo da ditadura comunista, terem acesso à cultura e um bom nível educativo.
No elevador, apesar dos livros, das músicas, dos filmes (previamente autorizados pelo Partido), o que eu mais desejaria era poder sair do elevador.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

MURO DE BERLIM

Sou absolutamente insuspeito em matéria de comunismo. Apesar de ser um garoto, estive na célebre manifestação da Fonte Luminosa em 1975 e sei o que passámos, vindos de Torres Novas, para conseguirmos entrar em Lisboa. Sempre manifestei publicamente as minhas opiniões relativamente ao pesadelo comunista que, pela sua duração (ainda dura) e descontando a trágica solução final, foi muito pior do que o nazismo e os diversos fascismos. Em Torres Novas, há dois comunistas que na rua me viram a cara, certamente por coisas que terei escrito relativas ao PCP e ao comunismo. Estou pois à vontade para dizer o que se segue.

O Muro de Berlim não estabelecia uma demarcação entre o Céu e o Inferno. A RDA não era o Inferno e a RFA não era o Céu. Nem a RDA era o Céu nem a RFA o Inferno. Vendo bem, o Céu e o Inferno nem sequer existem. A verdade é que nos países de leste havia aspectos de fazer inveja a um ocidental, sobretudo a um português. Por exemplo, o elevado nível educativo, cultural, científico das pessoas. Do mesmo modo que nos países ocidentais, havia bens sagrados que, para um cidadão de leste, eram simples miragens. E nem preciso de falar de bananas e calças de ganga. Basta falar de liberdade, da ausência de censura e de um "Pide" em cada esquina, em cada mesa de café, em cada cadeira do cinema onde podiam ser vistos todos os filmes e não apenas os que o Partido deixava ver.

Há um texto de Diderot (século XVIII), chamado "Suplemento à Viagem de Bougainville", no qual é feita a descrição do modo de vida dos índios do Taiti. Diderot, neste texto, pretende mostrar que o modo de vida desses indígenas é muito superior ao nosso. Também Montaigne, nos seus "Ensaios", cerca de 200 anos antes de Diderot, nos dá, a nós europeus, um murro no estômago com a descrição de comportamentos de índios brasileiros que acabam por mostrar o lado ridículo das nossas instituições ou comportamentos.

Certíssimo. Mas também não consigo imaginar Diderot a querer importar os comportamentos dos índios taitianos para os introduzir nos salões parisienses, nem Montaigne a sair da torre do seu castelo para ir viver no Brasil. Ora, o que se passa entre nós e os antigos regimes comunistas, é precisamente a mesma coisa. Poderíamos olhar para eles e sentir inveja de algumas coisas. Poderíamos invocar algumas dessas coisas para melhor termos consciência das nossas limitações e defeitos. Mas uma coisa é certa. Sinceramente, honestamente, espontaneamente, ninguém no ocidente, de boa-fé, poderia desejar uma sociedade assim.
O muro foi feito para impedir os habitantes de lá de fugirem para o lado de cá. Não para impedir um êxodo de ocidentais para o lado lá. Bem ou mal, caiu. Paz à sua alma.

domingo, 8 de Novembro de 2009

ESTATUTO DA CARREIRA DOCENTE

"O papa Bonifácio VIII, diz-se, acedeu ao seu pontificado como um raposo, comportou-se nele como um leão e morreu como um cão". Montaigne, Ensaios, II,1- Da inconstância das nossas acções

FREUD EM BUCARESTE


Estive ontem a rever o julgamento do casal Ceausescu. Momentos antes do fuzilamento, os soldados começam a querer atar as mãos dos condenados mas estes resistem indignados. Elena, furiosa, diz para os soldados que, certamente, estaria a ver pela primeira vez na vida: " Como podem vocês fazer-me isto? A mim, que vos criei como uma mãe".
A democracia é difícil mas é um momento inevitável para o crescimento intelectual e emocional de qualquer sociedade que se pretende adulta. Para isso será necessário matar o pai. Quase todas as democracias actuais tiveram que, em tempos, matar o seu. Algumas, pelos vistos, também a mãe.

CIÊNCIAS DE QUÊ?


Certíssimo. Que ter dado aulas no secundário possa ser uma mais-valia, compreende-se perfeitamente. Agora, ter formação na área das Ciências da Educação é meio caminho andado para temer a continuação do naufrágio que levou a que a escola portuguesa esteja com água pelo queixo.

sábado, 7 de Novembro de 2009

SIM...

NÃO!

UM CONSERVADOR REVOLUCIONÁRIO OU UM REVOLUCIONÁRIO CONSERVADOR?

Raízes
e asas.
Mas que as asas enraizem
e as raízes voem.
Ramon Jimenez

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

NAZARÉ

A MELHOR VOZ MASCULINA DE TODA A HISTÓRIA DO CINEMA

quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

TASCAS E TASQUINHAS


Uma das maiores pragas que infestam actualmente Portugal são os restaurantes cujos nomes começam por Taberna ou, pior ainda, por Taverna. Mas ainda pior é mesmo o amaricado conceito de “tasquinha”, uma espécie de tasca em versão azul-bebé. Uma aberração, uma grave e despudorada traição à velha e honrada tasca de outros tempos.
As tabernas tinham nomes que faziam jus à sua identidade ontológica. Ia-se para a taberna do Mário Russo, do Abílio, do Bué. Ou simplesmente para o Mal Atilado ou Zé da Ana. Sítios onde se bebia mais do que se comia. Com serradura no chão e pipas atrás do balcão, não com a famigerada ideia pós-moderna da decoração (enfim coisa de decoradoras urbanas e arquitectos de interiores que comem Chocapic ao pequeno-almoço) mas com vinho a sério para se beber enquanto se ia escarrando para o chão de cimento.
Mas o que são actualmente as tabernas ou as (até tenho vergonha de dizer) tasquinhas? Limitam-se a explorar sem vergonha a nossa fome de uma autenticidade perdida. Mas uma pessoa que vai a um restaurante chamado Taverna d’el Rei engana-se a si própria, julgando que voltou ao bom sabor dos velhos tempos. Não voltou. São normalmente restaurantes com azulejos horríveis nas paredes, balcões frigoríficos a dar para as mesas e a televisão sintonizada na TVI. Depois comem-se coisas que, ou são ideologicamente traiçoeiras ou mesmo ultrajantes para um português sério.­
No primeiro caso, temos como exemplo o “doce da avó”. Eu já não suporto olhar para uma ementa e encontrar “doce da avó”. Pronto, estou farto O que é o doce da avó? Um doce conventual com muita amêndoa, noz, ovos moles? Não. Uma mixórdia com natas, leite condensado e bolacha torrada. Tudo industrial e para enjoar ao fim de duas colheres, atacando-se então o enjoo com mais dois ou três goles de Ice Tea, Seven-Up ou Coca-Cola.
Já no segundo caso temos como exemplo os bifinhos com cogumelos. Mas desde quando é que um homem come uma coisa chamada “bifinhos”? Uma coisa acabada em “inhos”? Dá-se o leitinho ao bebé, põe-se a papinha na mesa, ele pede aguinha quando tem sede e nós damos. Agora meter um homem a comer bifinhos não tem pés nem cabeça. Na velha taberna alguma vez se comiam “bifinhos”? Ok, havia os molhinhos ou os jaqui­zinhos. Mas não tem nada a ver. Porque os bifinhos são uma degeneração do honrado bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Agora, os mo­lhinhos e os jaquizinhos são molhinhos e jaquizinhos porque se chamam mesmo assim. Não há molhos nem jaquins. Também já houve um jogador do Porto chamado Vermelhi­nho e outro do Benfica chamado Nelinho e não tinha mal nenhum. O problema só surge quando se chama Alfredinho ao Alfredo.
Não nos enganem mais. Não chamem taverna ao restaurante nem doce da avó ao Macdonald´s das sobremesas. Se querem fazer qualquer coisa que possa lembrar a antiga taberna ponham ao menos serradura no chão. Que é para podermos cuspir à vontade enquanto acabamos de beber o Ice Tea.

In "Jornal Torrejano"

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

JÁ NÃO SE GRITA ASSIM

SALA DE PROFESSORAS

Hoje, na minha sala de professores, olho à minha volta e vejo-me completamente rodeado de mulheres por todos os lados. Faço a contabilidade e constato a presença de quatro pobres professores rodeados de trinta e tal professoras.
Seria interessante uma investigação sociológica que nos pudesse mostrar um possível impacto no sistema de ensino do forte aumento da população feminina. Por favor, não me atirem já para a fogueira. Eu não estou a dizer que esse impacto é grande. Estou só a levantar uma hipótese.

AGENDA OCULTA -II

Pronto, eu bem tinha aqui avisado.
Ia agora publicar os simpáticos comentários do jl, da Alice N e da Micha relativos ao post anterior. Entretanto, por distracção, carreguei no "recusar" em vez de o fazer no "publicar". Como facilmente deverão supor, atendendo ao teor dos comentários, eu não teria grandes motivos para os rejeitar. Depois, quando voltei atrás para corrigir, apesar de estarem visíveis, já não foi possível publicá-los. Aos três, peço, por isso, as minhas envergonhadas desculpas, agradecendo ainda os vossos simpáticos comentários.

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR - SALA DE AULA

AGENDA OCULTA

Lamentava-me hoje perante um amigo de que ando cada vez mais distraído, esquecido e despistado. Ele, compreensivo, dizia-me que deveria arranjar uma agenda para registar as coisas mais importantes. Ele pode ter a sua razão. Mas para quê estar a anotar tudo o que há de importante para fazer e não esquecer, se tenho a certeza de que ao fim de dois dias já terei perdido a agenda?

BEM-ESTAR NA CIVILIZAÇÃO

A hipocrisia, o cinismo e a falsidade nas relações humanas não são coisas bonitas de se ver. Mas se é esse o preço a pagar para não andarmos, literalmente, aos tiros e às facadas uns aos outros, podemos então dizer que a hipocrisia, o cinismo e a falsidade nas relações humanas serão algumas das maiores conquistas civilizacionais.

segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

ALEKSANDR SOKUROV - MÃE E FILHO (1997)


PALAVRAS E EXPRESSÕES QUE DETESTO

VISIONAR

Ainda não consegui entender por que razão o "visionar" tem vindo, a pouco e pouco, a substituir o simplesmente "ver". Por exemplo, nas escolas portuguesas fala-se agora muito em visionar um filme. Eu cá sempre gostei mais de ver filmes do que visionar filmes. Mas no caso das escolas até dá para entender. Numa escola moderna, tecnologicamente desenvolvida e com elevados desígnios pedagógicos e educativos, o simples acto de ver torna-se demasiado simples e primário. Os pais e avós das crianças é que viam. Mas isso era noutro tempo. Visionar é bem mais finlandês e, nesse tempo, Portugal estava muito longe da Finlândia. Agora continuamos a estar e ainda vamos passar a estar mais. Mas com tanto visionamento, ele há coisas que as pessoas deixaram de ver.